Eco Animal - Márcio Linck
Os cachorros ou as crianças?
05 de março de 2011
A crítica mais contundente e recorrente que todo o defensor dos animais de rua ouve por aí resume-se em expressões do tipo: “com tanta criança abandonada ficam preocupando-se com cachorro”; “quanta creche ou instituição de caridade passando por dificuldades e essa gente perdendo tempo com esses bichos”. Também, de modo semelhante, aqueles que possuem um animal de companhia o e despendem algum recurso para o bem-estar e conforto destes ouvem com frequência: “Com tanta criança passando fome ou gente necessitada ficam gastando dinheiro com bicho”.
Sem entrar ainda no mérito da questão, ou quem sabe até entrando, é preciso ressaltar que cada pessoa tem o livre arbítrio para dispor do seu tempo e dos seus recursos naquilo que melhor convém, seja para si ou para uma causa qualquer. O juízo de valor emitido sobre as coisas é inerente ao indivíduo que assim o determina, mas apenas para si, e não deve servir de sentença para o outro ou como regra para a sociedade. É um patrimônio pessoal tanto quanto a consciência, a memória, os pensamentos e os sentimentos. A imposição a outrem de valores individuais soa como intromissão, arrogância e prepotência. Além disso, grande parte daqueles que criticam negativamente o trabalho dos defensores de animais de rua são os que nada fazem, nem pelos bichos e nem pelas crianças.
A luta em defesa dos animais de rua abandonados ou de crianças em situação semelhante constitui-se em causas nobres e extremamente importantes. Compará-las no sentido de se buscar soluções que minimizem as condições deploráveis dos entes envolvidos é louvável e salutar, porém é equivocada a comparação com o objetivo de estabelecer hierarquia. Daí ocorre uma sobrepujança de valores que se caracterizam normalmente por serem egoisticamente tendenciosos e preconceituosos, decorrentes de uma postura antropocêntrica ou especista (preconceito quanto à espécie).
Do ponto de vista filosófico, estabelecer que uma espécie tenha maior ou menor importância que outra é uma questão relativa e novamente resulta em juízo de valor. Para o animal que está na rua padecendo de fome, sede, frio, calor, febre, dor e solidão, qualquer gesto de generosidade que implique minimizar, remediar ou solucionar sua condição de vida poderá (para ele, bicho) constituir-se num ápice de alegria e satisfação. Ou diria, um ápice de felicidade, pois os bichos também a almejam, assim como nós, animais humanos.
O animal que sofre o abandono tem a desvantagem pela diferença de sua aparência física, por não poder manifestar em linguagem seus anseios e daí inapto a pedir esmola nos semáforos ou nas esquinas, por carecer de proteção jurídica abrangente e eficiente, e por sua vida depender exclusivamente do convívio solidário com os humanos. Aliás, foram estes que os tiraram do mundo selvagem, domesticando-os e tornando-os dependentes da civilização urbana e desumana. Aos animais não podemos cobrar paternidade responsável ou vadiagem por estarem nas ruas! O planejamento familiar deles depende da boa vontade humana em implantar uma política séria de controle das zoonoses. Pena, bem que eles também poderiam ter um ECA: Estatuto do Cachorro Abandonado, ou do Cavalo Assoleado!
Enfim, crianças e animais abandonados são vítimas de uma sociedade injusta, hipócrita e cruel. Diria, estúpida por natureza, porém salva pela grandeza e presteza de gente feito bicho para bicho feito gente. Simbiose perfeita de um mundo imperfeito.
Os problemas que assolam os dois casos são completamente diferentes em seus aspectos, porém, vem dos mesmos causadores, o ser humano.
ResponderExcluirO ser humano tirou o animal de seu habitat e o fez escravo e quando não o interessava mais, o fez lixo. Lixo vivo que perambula pelas calçadas urbanos clamando atenção, segurança e comida.
As crianças abandonadas... Lá no tempo do homem primata, quando se vivia em tribos, aldeias ou em uma sociedade ignorante e organizada, não havia abandono de crianças (nada científico - mas eu aposto que sim), porque o homem vivia naturalmente como um animal. Mas o homem "evoluiu" (felizmente o animal não, exceto, geneticamente pelo homem), contruiu destruindo, uns foram ganhando poder e outros passaram a viver, como se diz hoje, "abaixo da linha da miséria", logo, a consequência é o que se vê nas mesmas calçadas urbanas onde os cachorros estão à beira da amargura.
Mas o cachorro se vira melhor, apesar de sofrer as amarguras da rua e não fica assaltando as pessoas por aí para poder comer.
Já a criança... Gerada pelo mau planejamento familiar, por consequência de política de exclusão involuntária (capitalismo desenfreado), da qual somos também culpados... MATA! Para comer e para amenizar as dores que as ruas lhe causa.
Por que eu prefiro pegar um cachorro para cuidar? O cachorro ou o gato tem cura, por sua irracionalidade que pode ser conduzida com carinho e amor, o ser humano (criança), não.
SAVE THE ANIMALS - SAVE THE PLANET!